A Época da Páscoa
“Aleluia, Aleluia, Cristo Ressuscitou”
Toca a campainha e toda a gente se apressa a posicionar-se nos seus lugares na divisão da casa onde o padre juntamente com os seus ajudantes e a Cruz de Jesus vão entrar.
As famílias dão as boas vindas a todos com uma mesa recheada de doces e iguarias tradicionais da época. “Aleluia, Aleluia, Cristo Ressuscitou”, é uma das frases mais ouvidas durante a visita pascal onde se celebra a ressurreição de Jesus Cristo.
Domingo ou Segunda de Páscoa, assim designados são os dias da visita Pascal que se realiza após uma missa.
Nas freguesias toda a população que se dedica a este ritual vive-o de forma intensa e não deixa de visitar a casa dos vizinhos ou familiares de forma a desejar-lhes “Boas Festas” e/ou uma “Páscoa Feliz”.
A Páscoa é a época festiva religiosa que não tem uma data fixa. Festeja-se sempre 46 dias depois da quarta-feira de Cinzas e, como tal os preparativos fazem-se já em vésperas.
Páscoa: um ritual religioso
A Páscoa traz consigo uma série de tradições que muitas vezes por serem consideradas antigas ou mesmo porque não se inserem nos ritmos de vida actuais são descuradas levando a que a forma de celebração tome novos rumos e perca o conteúdo religioso. Segundo o Padre José Aventino as pessoas já não têm a mesma receptividade aos rituais católicos da Páscoa como tinham há alguns anos atrás.
“Enquanto que há 20 ou 30 anos atrás faziam-se estas celebrações por uma tradição repetitiva e sabíamos que tínhamos que participar, hoje muitas das vezes a Semana Santa é vista como algo de espectáculo, sobretudo aquilo que se passa extra-muros. Mas o espectáculo também é fundamental, é uma forma de apelar à fé e de receberem a mensagem da salvação.
A Semana Santa que também se designa de Semana Maior é talvez a semana mais importante que os cristãos têm onde vivem um bocadinho dos últimos passos de Jesus. Tentamos que as pessoas se associem à caminhada de Jesus para encontrarem depois o auge na Ressurreição de Jesus”.
De forma a completar este objectivo de cativar as pessoas para os actos religiosos da Páscoa, este ano o programa para a Semana Santa conta com algumas novidades como é o caso da procissão do Senhor dos Passos e da Via Sacra que se realizará no Jardim dos Centenários.
“Há muitos anos atrás estes rituais como a procissão do Senhor dos Passos e a Via Sacra já se fizeram pois, perante todo o património artístico da Igreja da Misericórdia há uma clara referência a uma tradição sobre a vivência dos momentos da paixão do Senhor, a partir do julgamento e vemos isso através das belas imagens que estão na Igreja da Misericórdia. Será uma vivência mais forte para a paróquia de Salvador e S. Paio porque as duas se identificam com a vila mas tentarei associar a estas celebrações as paróquias de Vilafonche e Giela”, explica o pároco.
No dia da visita Pascal, o Padre José Aventino diz esperar que muitas casas estejam abertas. “Não há muito esse hábito e cada vez mais as pessoas preferem ter a porta fechada porque preferem ficar no seu comodismo mas, continua a ser uma oportunidade única para receber o Senhor, a bênção nas nossas casas. Infelizmente as pessoas perderam esta noção e um bocadinho por nossa culpa. Os padres não podem ir a todo o lado e temos que recorrer muitas vezes a leigos e há bem pouco tempo atrás recorríamos a seminaristas mas agora já passam a ser uma raridade e portanto, já não é o padre que acompanha a Cruz, mas o sentido de bênção está presente e continua a ser o Senhor que entra pela casa e que deixa uma bênção especial, que é um incentivo para um novo ano, dentro da vivência da esperança e da ressurreição”.
A doçaria tradicional
A Páscoa não é só conhecida como um ritual religioso mas também como uma das épocas mais doces. Doces tradicionais, amêndoas e ovos de chocolate fazem as delícias de todos aqueles que apreciam este tipo de doçaria.
Nos dias da visita Pascal é normal verem-se mesas bem adornadas principalmente com doces tradicionais e caseiros para receber quem se desloca até às casas a acompanhar a Cruz.
Na Doçaria Central os preparativos para a Páscoa já começaram. As encomendas já se vão acumulando e têm que pôr mãos ao trabalho para que o tempo chegue para tantas encomendas.
Doces sortidos, pão-de-ló, charutos e rebuçados dos Arcos são os mais procurados e os que não podem faltar nas mesas no dia de Páscoa, seja em Arcos de Valdevez ou no estrangeiro, estes levados pelos emigrantes.
Quando questionada sobre a quantidade de doces que são confeccionados na Doçaria Central nesta época do ano, a Dona Clara diz que “são muitos quilos”. “Temos que comprar o material para confeccionar os doces mas o nosso medo é que não se vendam por causa da crise, e depois as pessoas quando encomendam fazem-no dois ou três dias antes e assim não nos dá tempo para conseguir fazer tudo, pois fazemos tudo de forma manual”, afirma acrescentando que agora até os mais jovens já procuram mais os doces tradicionais.
Os preparativos em casa
Para a visita Pascal, as donas de casa aplicam-se a fundo nas limpezas e o sol da Primavera ajuda aos preparativos para a Páscoa.
Para Maria de Lurdes da freguesia de Ázere, esta é uma óptima altura para trabalhar bem para as limpezas de interior e exterior da casa pois, o bom tempo ajuda a que se façam as coisas de forma mais rápida. Já para o dia da visita Pascal, Maria de Lurdes diz que vai abrir a porta para a “entrada da Cruz”e que “já é uma tradição de há muitos anos e são muitas as pessoas que aqui acompanham a Cruz”.
Para Ana Maria da freguesia de S. Paio, a Páscoa é uma época de maior devoção e dedicação à Igreja. “Este ano não vamos abrir a porta à Cruz pois faleceu uma pessoa da família mas normalmente abrimos todos os anos e é uma época de que gosto muito”. Para Ana Maria é uma alegria poder abrir a porta à Cruz e fazer os doces tradicionais da época. “Já os meus pais tinham o hábito de abrir a porta no dia da visita Pascal e sempre gostei de dar continuidade a essa tradição até porque para mim esta é uma época de união de família”, conta´.
Por Andreia Alexandra Fernandes





